Dois portfólios de Michel Soares recebem a Seleção Oficial do IPA 2026
Receber a confirmação de que dois portfólios meus foram escolhidos para a Seleção Oficial do International Photography Awards — IPA 2026 e avançaram para a rodada final de votação do júri foi uma surpresa enorme. Não porque eu não acredite…
Receber a confirmação de que dois portfólios meus foram escolhidos para a Seleção Oficial do International Photography Awards — IPA 2026 e avançaram para a rodada final de votação do júri foi uma surpresa enorme. Não porque eu não acredite no meu trabalho, mas porque ver dois projetos tão diferentes, construídos em países, culturas e momentos distintos da minha vida, reconhecidos ao mesmo tempo, ainda é algo que estou tentando assimilar.
Um deles é Raízes Africanas, inscrito no IPA como African Roots: Faith, Resistance and Continuity. Esse trabalho nasceu em Salvador, cidade onde eu nasci e onde essa cultura não é algo distante para mim: faz parte da minha formação, da minha memória e da minha identidade.
Cada fotografia foi feita com uma intenção muito clara. O objetivo nunca foi alcançar uma imagem tecnicamente perfeita. O objetivo era documentar: registrar a fé, os gestos, o trabalho, a resistência, a beleza e a essência das pessoas fotografadas. Era trazer dignidade para dentro do enquadramento e reconhecer a continuidade da cultura afro-brasileira e afro-baiana.
Quando achei que esse portfólio já havia cumprido um ciclo, ele continuou caminhando. Foi semifinalista do URBAN Photo Awards 2025, teve fotografias publicadas no livro URBAN Unveils the City and its Secrets — Vol. 11, integrou uma exposição no Palazzo delle Poste Centrali durante o Trieste Photo Days e levou as fotografias Smoking Man e Mãos de Sal ao Trieste Airport. Também foi selecionado no Prêmio Portfólio FotoDoc 2025 e participou de exposições no Japão. Agora, o IPA mostra que essa história ainda não terminou.
Paralelamente, fui construindo Contrastes Urbanos, inscrito como Urban Contrasts: Between Flow and Isolation. No início, eram fotografias aparentemente isoladas. Aos poucos, fui juntando esse quebra-cabeça a partir da minha experiência como imigrante e da observação de pessoas anônimas nas ruas, nas plataformas e nos trens japoneses.
Não pretendo definir o Japão inteiro. Registro o Japão que observo e experimento: um lugar onde milhares de pessoas dividem os mesmos espaços, mas raramente ultrapassam a distância que existe entre elas. Como estrangeiro, muitas vezes senti que perdia minha identidade e me tornava apenas mais um gaijin, quase invisível dentro da multidão.
O portfólio observa a solidão, o silêncio, a disciplina e o controle presentes no cotidiano. Pessoas conduzidas por sinais, gestos e fluxos organizados; passageiros comprimidos nos vagões, fisicamente próximos e emocionalmente distantes; rostos iluminados pelas telas dos celulares; jovens usando yukata em um matsuri enquanto seguram telefones e ventiladores portáteis. É o Japão tentando se equilibrar entre tradição, presente e futuro.
Entre minhas referências estão a liberdade visual, o alto contraste, o grão e o movimento presentes na fotografia de Daido Moriyama, além da observação direta da vida cotidiana associada à tradição de Henri Cartier-Bresson. São referências e inspirações, não comparações. Meu objetivo continua sendo encontrar a minha própria linguagem e documentar as pessoas e os espaços com o máximo de honestidade possível.
Tenho cerca de cinco anos de caminhada na fotografia. Por isso, chegar à rodada final do IPA 2026 com dois portfólios profissionais é algo que, para mim, se aproxima de um sonho.
Estou muito feliz, emocionado e profundamente agradecido por esta Seleção Oficial. Agora, sigo aguardando a decisão final do júri, mas já reconhecendo a importância deste momento para a minha trajetória.
Muito obrigado ao International Photography Awards e a todas as pessoas que, de alguma forma, fazem parte dessas histórias.
Michel Soares
Fotógrafo documental brasileiro radicado no Japão.